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Curicaca apaga incêndio no Refúgio Banhado dos Pachecos

Alexandre Krob*

Estamos sempre “apagando incêndios” nas Unidades de Conservação. É uma expressão que usamos sobre nossas ações emergenciais que surgem a toda hora para solucionar conflitos com políticos, empreendedores, etc. Só que dessa vez era um incêndio de verdade. Na tarde de sexta-feira passada, 15, quando íamos ao Refúgio da Vida Silvestre Banhado dos Pachecos para organizar um evento educativo, tinham posto fogo num samambaial dentro da Unidade de Conservação (UC) e que fica a beira da estrada de acesso à sede.


Assustados, paramos o carro junto às labaredas, que já ameaçavam alcançar a mata de restinga próxima. Antes mesmo de ligarmos para os gestores da Unidade, já vinha chegando

o guarda-parque de plantão. Só havia um servidor na área. Ele chegou num carro particular carregando alguns abafadores. Pra quem não conhece, trata-se de uma ferramenta formada por um cabo metálico que na ponta tem umas tiras grandes de borracha e que se utiliza batendo contra as chamas para abafá-las. Logo disse; “demorei pra chegar porque a caminhonete da Sema estragou”.

Peguei um abafador e pedi pra ele me ajudar no combate às chamas. Entrei pelo lado favorável do vento e na parte mais próxima à mata de restinga. Comecei a combater as chamas e, enquanto isso, o guarda ligava para os bombeiros e o chefe da UC. Em seguida, aproximou-se e disse que os bombeiros não pareciam dispostos a vir ajudar. Então ele pegou o abafador e veio também combater as chamas, mas quando chegou perto, pelo lado errado, sentiu o calor muito forte.

Sugeri que voltasse pra estrada e impedisse o fogo de passar para o samambaial do outro lado. A estrada serve de aceiro, mas o fogo pode pular sobre ela. Só que com cuidado e agilidade conseguimos apagá-lo e controlar o avanço da queimada. Sozinho, voltei a combater as chamas.

Cerca de uma hora mais tarde, consegui controlar todo o incêndio. Isso parece meio heróico, mas afirmo que não. Estou relatando em tom pessoal porque quero ser enfático nas conclusões e recomendações finais.

O fogo foi apagado graças ao uso de algumas técnicas, como atacar pelo lado certo, avançar e recuar evitando queimar-se, não deixar focos para trás que possam surpreendê-lo, manter um trabalho constante num ritmo viável, combater as chamas na base e, é claro, torcer pra que as condições sejam favoráveis (saiba mais como fazer). Quando a última labareda de fogo estava sendo apagada; chegaram os bombeiros. Rindo e tremendo pelo cansaço, saudei sua chegada e convidei-os pra pose.

“Pelo menos chegamos pra foto”, disse um dos soldados retribuindo aos meus sorrisos enquanto clicavam na máquina. Ele justificou que a única guarnição de bombeiros de Viamão fica na parada 43, distante quase 50 km dali. Além disso, explicou que ao saírem de lá deixam a cidade de Viamão fragilizada pelo risco de um incêndio urbano que pode acontecer a qualquer momento.

Simpaticamente, ao saber que éramos membros de uma ONG que trabalha com meio ambiente, colocou-se a disposição para quaisquer outras ajudas que precisássemos, inclusive palestras. Ficamos na dúvida se tirávamos mais uma foto junto ao caminhão, mas cansado preferi ir à sede do Refúgio para limpar-me das cinzas, lavar os arranhões e tomar água. Na sede, o guarda-parque, um senhor muito simpático, ofereceu-me água, sabão e toalha. Disse-nos que trabalha há cinco anos no Refúgio e que quase anualmente colocam fogo naquela área. “Há dois anos o estrago foi bem maior, pois o fogo passou pro outro lado da estrada e alcançou o banhado queimando uma grande área”. Continuou; “hoje estou só eu por aqui e sozinhos não conseguimos fazer nada”.

A alusão à simpatia do homem é pra poder separar o pessoal do institucional. Uma pessoa treinada teria controlado o fogo sozinha, como eu fiz. Mas não é culpa de nenhum funcionário público não ser treinado e não conseguir atuar. Isso é culpa do Estado. Por isso, também não é culpa do bombeiro ser cauteloso quanto ao risco de sair da guarnição para apagar um incêndio numa UC quando isso trás riscos às pessoas.

Nesse caso, onde o Estado erra e merece ser cobrado? Quando não tem funcionários suficientes para cuidar das Unidades de Conservação, algumas delas, inclusive, sem sequer um responsável. Então merece ser obrigado a fazer concurso público para deixar de colocar em risco o patrimônio natural e público pelo qual tem responsabilidade. Erra também quando não está preparado para atuar, faltando-lhe planejamento e qualificação técnica. Assim merece ser pressionado a fazer o plano de manejo do Refúgio, obrigação determinada por lei e com prazo vencido, no qual teria orientações para lidar com incêndios.

 *Agrônomo, mestre em agronomia, especialista em gestão ambiental, ambientalista, coordenador técnico do Instituto Curicaca e membro dos conselhos gestores de sete Unidades de Conservação.



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