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Educação Ambiental: um processo contínuo de construção

No VI Congresso Ibero-americano de EA, equipe da Curicaca contribui para discussões fundamentais sobre o tema


Quatro trabalhos relacionados à prática da Curicaca foram apresentados no VI Congresso Ibero-americano de Educação Ambiental, realizado entre 16 e 19 de setembro em San Clemente del Tuyú, na Argentina. O encontro, o mais relevante da região sobre o assunto, reuniu educadores, pesquisadores, membros de ONGs e representantes dos governos dos países ibero-americanos em torno do mote Enriqueciendo las propuestas educativo-ambientales para la acción colectiva.


Alexandre Krob (Coordenador Técnico) e Patrícia Bohrer (Coordenadora de Educação Ambiental e Cultura) apresentaram, cada um, dois trabalhos, todos escritos em colaboração com a equipe de Educação Ambiental da ONG.


Em meio a tantos hermanos reunidos em prol da mesma causa, a Curicaca parece ocupar uma posição singular, na medida em que sua ação cultural de criação se afirma como metodologia própria da ONG. Foco do trabalho “Ação Cultural de Criação Saberes e Fazeres da Mata Atlântica: a metodologia de educação ambiental da ONG Curicaca” (Bohrer), o projeto foi implementado há quatro anos, em seu formato atual, e é direcionado a alunos e professores da rede pública, procurando alcançar as comunidades do entorno de Unidades de Conservação e corredores ecológicos.


Apoiados em atividades lúdicas – tema de uma das apresentações de Krob, “Jogos e brincadeiras na educação ambiental: a arte de cativar para as descobertas que mudarão nossa percepção de mundo” – os encontros da Ação são divididos em quatro momentos: integração e motivação do grupo; concentração; experiências de sensibilização realizadas ao longo da trilha ecológica; e, por fim, uma reflexão acerca do encontro e das questões ambientais abordadas, com o objetivo de provocar posturas críticas e pró-ativas.


A falta de um espaço no qual possa concentrar suas atividades estimula o caráter itinerante da Ação, que atinge, hoje, cinco municípios do litoral norte do Estado: Torres, Arroio do Sal, Dom Pedro de Alcântara, Morrinhos do Sul e Mampituba. Patrícia aponta tal restrição como fator enriquecedor do trabalho: “As pessoas estão na casa delas, interagindo com elementos que são significativos para sua comunidade”, diz. Há desvantagens, reconhece, como a dependência da boa vontade meteorológica (muitas saídas já tiveram de ser canceladas por causa da chuva) ou o incômodo vaivém de materiais pedagógicos (banners e jogos confeccionados pela ONG), mas os resultados compensam.


É aí que se insere o segundo trabalho apresentado por Krob: “O monitoramento de resultados da educação ambiental como estratégia para sua inclusão em políticas públicas e ações institucionais”. Patrícia relata o grande interesse dos presentes nos métodos adotados pela ONG com o intuito de comprovar o impacto positivo gerado nas comunidades alvo da Ação Cultural de Criação. A obtenção de dados concretos sobre o processo é essencial não apenas para detectar possíveis falhas, mas também para o estabelecimento e manutenção de parcerias. Eles convertem-se em argumentos objetivos, capazes de convencer apoiadores em potencial – e a sociedade como um todo – da eficácia da Ação.


Patrícia lamenta a atitude hegemônica demonstrada no evento pela academia, que resiste, por vezes, em aceitar a validade do saber prático das ONGs ou das comunidades envolvidas nos projetos de EA. “A universidade não se dá conta do quanto ainda tem para aprender”, diz. Há, do ponto de vista acadêmico, uma hierarquia de conhecimentos dentro da qual as trocas não podem ocorrer de igual para igual.


As Trocas de Saberes promovidas pela Curicaca, tema de outro dos trabalhos de Bohrer – “Trocas de saberes cruzando o conhecimento científico e o popular na construção de novas perspectivas regionais de sustentabilidade” – vão radicalmente contra tal postura. Elas pressupõem a igualdade de valor dos conhecimentos científico e popular, e a cooperação entre ambos visando a benefícios comuns. Parte da Ação Cultural de Criação, as Trocas reúnem membros da comunidade que detêm saberes e fazeres populares e pesquisadores, técnicos ou estudantes universitários que trabalham na região. Desde 2005 foram realizados treze encontros, abordando temas como O Terno de Reis, o Artesanato Tradicional com Fibras Naturais, as Tafonas de Farinha e a Biodiversidade da Mata Atlântica.


As trocas possibilitadas pelo congresso integram de forma determinante o processo de construção e legitimação da EA na América Latina. Segundo Patrícia, o conceito de EA é ainda recente e, apesar de apresentar certos pontos básicos em todas as instituições em que ocorre, sua prática está em constante mutação e aprimoramento. Um evento de tal porte é um importante indicador da abrangência do tema, e os resultados do intercâmbio de ideias entre os sujeitos envolvidos podem levar a um redirecionamento de políticas públicas, no sentido de fomentar a realização de projetos na área.

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