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Lixo nos arroios de Porto Alegre e suas conexões ambientais e sociais*

Duas reportagens de hoje, dia 11 de maio de 2012, posicionadas lado a lado nas páginas 42 e 43 da Zero Hora, provocaram minha manifestação num assunto que tem me incomodado bastante, a eficácia ambiental e social da coleta seletiva de resíduos sólidos em Porto Alegre e seus desdobramentos. A reflexão e provocação podem ser feitas por meio de um conjunto de perguntas de encadeamento lógico e que têm sua ilustração nas fotos publicadas pelo jornal.


Quem vem sistematicamente realizando a maior parte da coleta de resíduos recicláveis nas residências de muitos bairros de Porto Alegre?


Nesse momento, essa é uma pergunta que precisa ser respondida por exclusões. Primeiro; não são os caminhões da Coleta Seletiva, pois quando esses passam lá pelas 9 horas da manhã a maioria do resíduo já foi coletada e só sobraram migalhas sem valor – lixo. Segundo; não são as pessoas que trabalham nas associações de recicladores, os galpões formais de reciclagem, pois as caminhonetes e caminhões que coletam a partir das 6 horas da manhã não têm identificação e, também, a maioria das associações não tem veículo próprio. Bem, sobrou como opção várias pessoas autônomas que, com diferentes tipos de veículos, fazem a coleta principal nos dias definidos pelo Departamento Municipal de Limpeza Urbana - DMLU.


E daí! O resíduo é coletado de um jeito ou de outro, então, por que eu me importo com isso?


Há inúmeras diferenças entre o que ocorre e o que deveria ocorrer e elas se interligam numa relação de causa-efeito quando paramos pra pensar alguns problemas ambientais e sociais de Porto Alegre.


Quando a coleta dos resíduos na frente das residências é feita pelo caminhão especial do DMLU, toda a responsabilidade pelo uso e destino do material passa a ser desse órgão, que tem essa atribuição e competência legal. Então, o caminhão da Coleta Seletiva carrega o “lixo seco” para as associações de recicladores, que separam o que pode ser comercializado e colocam o que sobrou, o lixo, enfim, em containeres do próprio DMLU. Os containeres são então recolhidos pelo Departamento e o lixo levado ao aterro sanitário.


Quando a coleta é feita por pessoas autônomas, o material é levado para algum local desconhecido onde será previamente separado – metal, vidro, papel, plástico. O que tem valor de mercado é transportado novamente para locais de compra. O que sobra, o lixo, é dispensado nas proximidades, pois uma pessoa autônoma, que não tem seu empreendimento de reciclagem regularizado, licenciado e nem é fiscalizada, não vai gastar dinheiro para levar o que sobra, o lixo, até o aterro sanitário.


A impressão que a sociedade tem é que não haveria sobra ou lixo daquele resíduo seco que é destinado à reciclagem, mas isso não é verdade. Vários tipos de plásticos e papéis, pela condição que se encontram após o uso ou mesmo pelo seu tamanho pequeno ou composição mista, não tem um destino comercial e por isso não podem ser reciclados. Entram na Coleta Seletiva, mas seu destino já poderia ser diretamente o lixo. Além disso, há o efluente decorrente da lavagem dos materiais. Em síntese, a reciclagem tem seu próprio resíduo que demanda cuidado.


Onde é descartado o lixo das iniciativas autônomas?


Os locais públicos disponíveis para isso, nesse caso aqueles que pertencentes a toda a sociedade, mas que são responsabilidade constitucional dos órgãos públicos, são os arroios próximos das casas ou galpões onde as pessoas autônomas separam o lixo. Na página 43 da Zero Hora aparece uma foto do Arroio Areia, mas poderia ser o Arroio Cavalhada, o Arroio Mem de Sá, citados na página 42, ou outro qualquer. Depende apenas de onde os autônomos moram e trabalham e da quantidade de material que coletam.


A conexão administrativa entre o que o DMLU faz com os resíduos de Porto Alegre,o que o Departamento de Esgoto Pluviais (DEP) faz para limpar e desassorear os arroio da cidade e o que a Secretaria Municipal de Maio Ambiente (SMAN) faz para garantir a qualidade ambiental do município não é visível à sociedade, como as inter-reações socioambientais.


Há também uma grande conexão financeira no âmbito da gestão dos recursos públicos que precisa ser aprofundada. Se o DEP declara que poderia economizar R$ 1milhão de reais por ano caso as pessoas não jogassem lixo nos arroios, quanto desse valor poderia ser economizado caso a gestão pública dos resíduos recicláveis de Porto Alegre fosse mais eficiente? O quanto está se gastando com uma coleta seletiva que leva para as associações de recicladores o resto do resto? Quanto por cento da taxa anual que pagamos para a gestão do lixo está sendo desperdiçado em um processo ineficaz de Coleta Seletiva? O que podemos fazer para melhorar essa conta fortalecendo a importância da reciclagem?


Podemos ampliar as conexões ambientais?


Obviamente. E muito mais do que eu posso ou pretendo aqui. Mas pra ajudar me inspiro na pergunta que nossa estagiária de jornalismo fez ontem: “o que eu achava desse problema do gosto ruim na água de Porto Alegre”.


Expliquei que a proliferação de algas, que causa tal incômodo, é uma consequência da poluição com resíduos orgânicos, os quais disponibilizam os nutrientes para que, em condições climáticas favoráveis, haja um “bum” de crescimento dos microorganismos. Que isso se intensifica em períodos menos chuvosos por diminuir a diluição, mas que deveríamos nos preocupar também com a poluição que está ali e não conseguimos ver, cheirar ou sentir seu gosto. São poluentes químicos, cuja remoção da água pode ser muito cara e muito difícil.


A foto da página 43 nos mostra um Arroio Areia com águas pretas, morto, com uma quantidade de lixo de toda ordem e que traz muitos produtos orgânicos e químicos. Esse arroio, e todos os outros de Porto Alegre, têm suas águas escorrendo para o rio Gravataí e o lago Guaíba e, portanto, de alguma forma ajudam na proliferação das algas e na contaminação química da água. Por isso, as conexões alcançam também o Departamento Municipal de Águas e Esgotos.


E as relações sociais?


A reciclagem de resíduos domiciliares tem, há muito tempo, uma função social. É uma oportunidade para que seres humanos excluídos pela sociedade possam resgatar sua dignidade por meio da melhoria da auto-estima e o reconhecimento social de sua atuação ecológica. A organização social dessas pessoas na forma de associações de recicladores é um pré-requisito de valor para que o serviço público coopere com estas empresas e deposite esforços e dinheiro na coleta e entrega do resíduo que os cidadãos porto alegrenses separam diariamente em casa. Essa é uma visão mundialmente consagrada.


A valorização das associações de recicladores, por meio do reconhecimento e apoio social e público, evita ou diminui a exploração, a violência e a degradação humanas que há décadas ficaram conhecidas nos estudos do processo caótico que ocorria nos lixões. A falta de oportunidades públicas para o resgate social amplia a criminalidade e as demandas de segurança pública, o que por conexão envolve outras secretarias de governo.


O que encontramos no Arroio Areia, mostrado pela foto da página 43, é sem dúvida um lixão. Desconsiderado, porque o poder público não deposita diretamente ali os resíduos de Porto Alegre e porque está numa área de difícil acesso, mas ainda assim real no seu impacto ambiental e social. Basta refletir sobre as conexões existentes, detalhá-las ou fazer outras, para estabelecermos facilmente responsabilidades de órgãos públicos e da sociedade. A provocação vai para nossos gestores públicos e nossos políticos, mas também para cada um de nós que depois de separar o lixo dentro de casa coloca pra fora, fecha a porta e desconecta a mente do que vem depois.



*Alexandre Krob, agrônomo, coordenador técnico do Instituto Curicaca



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