PROCERVO - Programa de conservação do cervo-do-pantanal no Rio Grande do Sul

O cervo-do-pantanal (Blastocerus dichotomus)

Existem muitos estudos realizados sobre diferentes aspectos do cervo-do-pantanal. Considerando sua ampla distribuição geográfica, abrangendo diferentes regiões e ecossistemas, é esperado que a espécie apresente variações em sua biologia e comportamento como adaptação às características biológicas, climáticas e antrópicas das áreas de ocorrência. Alguns exemplos são apresentados a seguir.

Distribuição

 

Originalmente, apresentava uma grande área de distribuição na América do Sul: no Peru e Bolívia, desde o sul da floresta amazônica e leste da cordilheira dos Andes ao norte do Chaco; na Argentina, ao norte dos Pampas e leste do Chaco e, no Uruguai, ao norte e oeste dos Pampas. No Brasil, distribuía-se desde o sul da floresta amazônica, sudoeste da região semi-árida da Caatinga, nordeste do país e oeste da região montanhosa da floresta atlântica, no Sul e Sudeste (Tomas et al. 1997).

Ambientes

 

Está sempre associado a ambientes úmidos, tendo adaptações especiais para a vida em tais hábitats, como a presença de membranas interdigitais entre os cascos, que são alongados, e membros relativamente compridos. Alguns estudos têm mostrado que os cervos não costumam frequentar ambientes aquáticos com profundidade superior a 60.70 cm (Schaller & Vasconcelos 1978, Beccaceci 1994). Entretanto, Tomas et al. (1997) observaram ser comum os animais ocuparem lagoas mais profundas no Pantanal, à procura de plantas aquáticas do gênero Nymphaea, sendo que a profundidade preferencialmente ocupada por cervos está entre 20 e 60 cm de profundidade (Tomas et al. 1997).
 

Habita principalmente áreas abertas, como campos e savanas alagadas, várzeas de rios, brejos e lagoas (Fonseca et al. 1994). Nas várzeas do rio Paraná, ocupa predominantemente áreas alagadas, evitando campos secos, lagos, matas e áreas de cultura (Tomas et al. 1997). Em determinados períodos, podem ser observados no interior de matas, utilizando-as como abrigo ou refúgio (Nogueira Neto 1973, Pinder 1996), ou simplesmente para descanso, principalmente nas horas mais quentes do dia (Tomas et al. 1997).

Estudos realizados em regiões sujeitas a fortes mudanças climáticas anuais sugerem que os cervos realizam migrações sazonais à procura de hábitats mais favoráveis nas estações seca e chuvosa (Schaller & Vasconcelos 1978, Pinder 1995).

 

Horários de atividade

 

Existe certa variação em relação ao período de maior atividade da espécie ao longo do dia, havendo registro de períodos de forrageamento (busca por alimento) diurnos e noturnos. Como consenso, os autores afirmam que os cervos diminuem suas atividades durante os períodos mais quentes do dia. Andriolo et al. (2003) sugerem que a espécie apresenta mais atividade noturna do que diurna na região do Rio Paraná, contrastando com os trabalhos de Nogueira-Neto (1973), Voss et al. (1981), Pinder e Grosse (1991) e Tomas et al. (1997), que afirmam que a espécie é mais diurna. Entretanto, Nogueira-Neto (1973) reporta que o cervo-do-pantanal pode tornar-se noturno em locais onde ocorre caça ou perseguição, como a planície do rio Paraná. Tal fato pode não ocorrer no Pantanal, por exemplo, onde a espécie não é caçada. O horário de atividade pode variar também se áreas de ocorrência estão próximas a áreas mais habitadas.

Para a população que ocorre no ReViS Banhado dos Pachecos, em anos de análise o gestor dessa UC concluiu que a atividade mais intensa do cervo-do-pantanal ocorre no período noturno, muito possivelmente pela pressão do entorno. Essa análise de atividade do cervo-do-pantanal está em fase de encaminhamento para publicação de artigo científico.

Alimentação

 

Bunnel (1982) sugeriu que a dieta de cervos-do-pantanal era composta por gramíneas, diferentemente de Hofmann et al. (1976), que classificava a dieta desses animais como essencialmente formada por brotos. Já Schaller (1983) reporta que os cervos possuem uma dieta variada, o que foi confirmado por Beccaceci (1996) e Tomas et al. (1997).

As armadilhas fotográficas têm sido empregadas desde o ano de 2011 na área do RVSBP, para monitoramento da fauna de mamíferos de médio e grande porte. Através dessa técnica de coleta de dados, foi possível gerar o conhecimento básico inicial sobre B. dichotomus nesta Unidade. Com relação ao número populacional, observou-se que a população do RVSBP reúne um número maior de indivíduos diante do que foi reportado no trabalho de Voss et al., (1981). Os resultados do monitoramento fotográfico também permitiram registrar os períodos de nascimentos dos filhotes na área, bem como alguns elementos da dieta, a exemplo das folhas de Mimosa bimucronata (maricá), que parece ser um dos itens alimentares importantes para a espécie na área do Banhado dos Pachecos. Os horários das fotografias deixam claros os hábitos noturnos e crepusculares de B. dichotomus, indicando um pico de atividade no início da noite. Os cervos são raramente visualizados na área, possuindo hábitos bastante invasivos no ambiente de banhado, no qual são exclusivamente encontrados. (trecho do Plano de Manejo do ReViS Banhado dos Pachecos que está em fase de homologação, 2021)

Ameaças ao cervo

Para o diagnóstico de ameaças à população relictual de cervo-do-pantanal e ao seu habitat na Bacia do Gravataí, foi utilizado o standard de ameaças à conservação da biodiversidade apresentado por Salafsky (2003). 

A perda e degradação dos habitats do cervo-do-pantanal, assim como a caça, foram as causas principais do declínio histórico da espécie. Nas áreas de contato entre cervos e animais domésticos, a transmissão de doenças pelo gado bovino pode ocasionar a morte de animais. Especificamente no Rio Grande do Sul, o pequeno número de indivíduos, que se mantém reduzido já há vários anos, pode estar ocasionando efeitos genéticos deletérios, piorando a gravíssima situação da espécie no Estado.

Outra ameaça potencial à conservação do cervo seria a instalação de barreiras que diminuam ou fragmentem o seu hábitat, impedindo o seu deslocamento entre as áreas de ocorrência registrada ou potencial ocorrência. Qualquer tipo de empreendimento instalado em área núcleo da espécie vai gerar dano direto a sobrevivência da população remanescente. Já nas áreas do Corredor do Cervo fora das áreas núcleo, alguns tipos e portes de empreendimentos podem ser barreiras para a espécie, tal como aterros sanitários, mineração, dentre outros tantos. Já as lavouras de arroz do entorno do ReViS Banhado dos Pachecos não têm sido demonstradas como barreiras para o cervo, pois há registros recentes feitos pelos assentados da espécie no perímetro irrigado do Assentamento Filhos de Sepé. Portanto, essa atividade pode ser perfeitamente compatível com a ocorrência do alvo.

Situação - Contínuo desde 2010

Parceiros - Centro de Ecologia da UFRGS, Fundação Zoobotânica, Sema/RS, PUCRS,
Nupecce/UNESP, INCRA


Financiadores - Fundação Grupo Boticário, MDA


Equipe Técnica - Instituto Curicaca: Alexandre Krob, Caroline Diegues, Ismael Verrastro Brack, Bruna Arbo Meneses - UFRGS: Andreas Kindel - FZB: Jan Carel Felix Mähler Jr., Glayson Bencke, Maria do Carmo Both - Sema/RS: André Osório, Paola Stumpf, Denise Machado - PUCRS: Eduardo Eizirik - NuPeCe: Maurício Barbanti.

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